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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Marvin Gaye


Stevie Wonder e Smokey Robinson eram muito mais paqueradores, mas são raras as vezes em que igualaram Marvin Gaye em interpretação e sensualidade. Trocando em miúdos, Let's Get it On é o primeiro disco da Motown a exalar sexo.

Na biografia Divided Soul, o americano David Ritz revela que o cantor apanhara tanto do pai - um pastor chegado em se vestir de mulher logo após o culto, que, adulto, desenvolveu problemas como timidez com as garotas e ejaculação precoce. Talvez por isso, o cantor tenha se casado com a maternal Anna Gordy, irmã do dono da Motown, muitos anos mais velha que ele.

Porém, logo depois do sucesso de What's Going On (1971), o casamento havia terminado. Gaye afastou-se dos estúdios da Motown para trabalhar com músicos de Jazz.

Muito do refinamento sonoro de Let's Get It On foi produzido nesses encontros. Mas a verdadeira inspiração apareceu tempos quando, no dia 13 de março de 1973, Marvin Gaye se deparou com Janis Hunter, uma garota de dezessete anos. Ali, ele superou qualquer problema que tivesse com o sexo oposto.

Let's Get it On, a princípio, nasceu como um disco dedicado a Jesus Cristo.

Gaye era fanático por religião, desses capazes de passar horas discutindo sobre Jesus. Por isso é que em boa parte das letras do álbum, ele fala de como é bom estar unido a alguém e da necessidade de se entender. Mas bastou Janis entrar na sua vida que o foco do disco mudou.

Hoje, se você presentear alguém com Let's Get it On corre o risco de ser processado por assédio sexual. Um fato triste na carreira do disco é que ele tornou a vida do cantor insustentável do ponto de vista amoroso. Um cara que tinha problemas com as mulheres passou a ser encarado como o sedutor irresistível, aquele que ganhava todas as garotas da parada. E, claro, Gaye queria era ser reconhecido apenas por valor artístico.

Do riff de guitarra da faixa-título à promessa contida em "Just Keep You Satisfied" ("apenas para te satisfazer", outra religiosa que foi distorcida na interpretação de Gaye), Let's Get It On é uma obra-prima e de múltiplas utilidades.

Os românticos podem usá-lo como trilha para acasalamento - os sussurros e o sax de motel de "You Sure to Ball" são altamente recomendáveis. Os músicos irão se deliciar com as linhas de baixo criadas por Wilton Felder. Já os mais religiosos poderão sonhar com a ideia de que Marvin Gaye foi o melhor pregador que a igreja jamais teve. E todos podem se deliciar com um tempo em que a música negra era muito mais do que um bando de gente berrando "yo!" e andando de calças arriadas.

Texto |
Sérgio Martins
Discoteca básica da Bizz | Edição 194, Outubro de 2005

1973 | LET'S GET IT ON

01. Let's Get It On
02. Please Stay (Once You Go Away)
03. If I Should Die Tonight
04. Keep Gettin' It On
05. Come Get To This
06. Distant Lover
07. You Sure Love To Ball
08. Just To Keep You Satisfied

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domingo, 1 de dezembro de 2013

Marvin Gaye


Marvin Gaye era a gema da Motown: carismático, boa-pinta e excelente cantor e compositor (ele é quem criou a genial e contagiante Dancing In The Street, clássico da Martha Reeves And The Vandellas, por exemplo). Não era a toa que ele era chamado de simeplesmente o Príncipe do Soul. No famoso selo de Detroit, ele emplacou dezenas de sucessos memoráveis pelos anos 60 afora, como I Heard It Trough The Grapevine , Hitch Hike, Pride And Joy, Your Precious Love, How Sweet It Is (To Be Loved by You), Ain't That Peculiar.

O auge foi o duo que ele criou com a bela Tammi Terrell: Ain’t No Mountain High se tornaria um dos maiores êxitos de odos os tempos pela Motown. A parceria, no entasnto, terminou de forma patética e trágica. Diagnosticada com tumor no cérebro, Tammi morreria meses depois, com apenas 24 anos. Seu passamento significou o fim do episódio 1 da carreira de Gaye. Arrasado, ele ficou mais de dois anos longe do disco e dos palcos. Ao mesmo tempo, decidiu repensar a vida. Não queria mais cantar músicas românticas. Para ele, o mundo estava de cabeça para baixo, e ele precisava fazer alguma coisa. Escreveu um punhado de canções, que retratavam o seu ponto-de-vista perante problemas na sociedade, como abuso de drogas, racismo, violência policial e a Guerra do Vietnã.

Inicialmente, ele queria gravá-las coma colaboração de Al Cleveland e Renaldo Banson, dos Four Tops. Eles sugeriram que Marvin as gravasse ele mesmo. No fim, teria que tomar uma decisão corajosa e defender com unhas e dentes What's Going On. Não era um álbum de canções pop, mas sim um disco com letras de protesto. Barry Gordy Jr, o todo-poderoso manda-chuva da Motown, não gostou nada da idéia. Achou que era ousadia demais abordar essa temática, ainda mais, num disco da Tamla. Gaye bateu pé: queria gravar What’s Going On, e ponto final. Ambos ficaram num impasse, até que o cantor deu o ultimato ou Gordy, que naturalmente queria um disco na velha fórmula de sucessos da Motown. Ou ele aprovava o projeto ou ele pediria demissão. Gordy, por sua vez, teve que engolir o seu preclaro artista principal. Por mais desastroso que fosse permitir o disco, ele não podia perder Gaye para a concorrência.

Contudo, o que mais chateou o dono da Motown foi o fato de que o disco não tinha, em sua opinião, nenhuma viabilidade comercial e, que diabos, não iria tocar em nenhuma rádio, de jeito nenhum. Todas as músicas eram um ciclo de nove partes, que contam uma história contínua — mais ou menos como no famoso (!) álbum conceitual Watertown, de Frank Sinatra. Nesse caso, por melhor que seja, ele se tornaria o melhor disco do The Voice menos ouvido da história. Gordy achava que se What’s Going On não encalhasse, reria mais por causa de Gaye que das faixas em si.

Para sorte e azar de Gordy, ele se enganou redondamente (não seria a primeira vez: por exemplo, se dependesse do seu aval, Marvin e Tammi jamais teriam gravado a adorável Ain’t No Mountain High) e provou a máxima de que você “não precisa de metereologista para saber qual é a direção do vento” A faixa que dá no me ao álbum, por exemplo, lançda como compacto (contra as ordens de Gordy, novamente) foi o maior sucesso de Marvin desde I Heard It Trough The Grapevine, vendendo quase três milhões de cópias.

1971 WHAT'S GOING ON

01. What's Going On
02. What's Happening Brother
03. Flyin' High (In The Friendly Sky)
04. Save The Children
05. God Is Love
06. Mercy Mercy Me (The Ecology)
07. Right On
08. Wholy Holy
09. Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)

Bônus Tracks:
10. God Is Love (B-side)
11. Sad Tomorrows (B-side)